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Carta aberta a Humberto Maturana São Paulo, 7 a 24 de junho de 2006 Humberto, Sem formalidades, escrevo essa carta com dois objetivos em vista: mostrar a você, como venho adaptando meu trabalho profissional e político à Biologia do Conhecer; e mostrar aos interessados, o que é este meu trabalho e o que desejo com ele. Um amigo de Belo Horizonte, o professor da UFMG, Marcos V. Bortolus me presenteou com um livro seu e, dois anos depois, em maio de 2004, cheguei a participar de um Seminário com a sua presença, também em Beagá, realizado por Cristina Magro. Se ajudar a lembrar, cuidava da minha filha de um ano e meio, a Ceci, única criança a circular no auditório de sua palestra. Pra você entender um pouco da minha trajetória, faço um pequeno histórico pessoal antes de mostrar como estou absorvendo o impacto de sua obra no meu devir: Em 1990, eu morava em Curitiba e cursava Arquitetura e Urbanismo na UFPR. Sempre tive facilidade nos estudos, cheguei a passar em 2º lugar no vestibular, mas não tinha certeza do que gostaria realmente de fazer, apesar de estar concluindo o curso acadêmico. Ao conhecer a literatura de Roberto Freire, me encantei e me identifiquei com suas propostas libertárias e afetivas. Pouco tempo depois, o conheci pessoalmente e fiz SOMATERAPIA com ele. Nesse momento, virada de 90/91, comecei grandes rupturas no meu cotidiano: Tranquei meu curso acadêmico, e entrei na formação para Somaterapeuta. Formei-me em 1993, e desde então trabalho com a SOMA que aprendi com seu criador, Roberto Freire. De 2000 a 2002, me afasto de outros terapeutas e também do Freire. Assim, fazer SOMA e depois atuar com essa técnica de 1991 a 2001, foram 11 anos de convivência com a genialidade de Roberto Freire e sua obra. Nesse resumão que te faço, reduzo a dois pontos a importância da SOMA/Freire na minha vida: descobri o prazer como referencial biológico do viver, e como esse prazer se relaciona com o social em aspectos políticos. Isto é, descobri o anarquismo como ideologia política que melhor expressa minha forma de viver, e pontuava isso (naquele momento) como um dado biológico e não somente político; pois nesse biológico SOMÁTICO, criei uma idealização: prazer individual » liberdade e solidariedade sociais » vida mais saudável. Logicamente o prazer passa por critérios de adaptação às circunstâncias sociais, onde estrategicamente podemos viver desprazeres, desde que transitórios e descartáveis em prol de um prazer maior. Mas havia dentro de mim uma idealização de um comportamento libertário no social, e como isso se relaciona com os conflitos individuais dentro do processo terapêutico. Assim, falar em IDEOLOGIA DO PRAZER, baseada em Wilhelm Reich, era descobrir o corpo de uma forma nova. Uma forma oposta a da educação tradicional, onde se cria uma alienação e afastamento da percepção do seu próprio corpo e suas necessidades metabólicas. Na SOMA, falar em prazer, só é possível a partir da descoberta do próprio corpo. Falando de outra maneira, descobri a PROPRIOCEPÇÃO. O sexto sentido da psicoterapia corporal, que é ignorado na nossa educação formal e na cultura como um todo. A percepção da realidade externa ao corpo, isto é, o próprio viver nos dado pelos sentidos, é reavaliado na SOMA, ao percebermos a nossa realidade interna: postura, gestualidade. musculatura, tensões, angústias, ansiedades, prazer & dor, etc... Na década de 1990, a prática da SOMA nos levou, o coletivo de terapeutas, a desenvolver pesquisas variadas. Principalmente a pedagogia libertária e suas inúmeras aplicações sociais. Enfim, expandimos a atuação da técnica terapêutica, e além de um grupo de profissionais em psicoterapia, atuamos na sociedade através de outras áreas, principalmente nas áreas culturais. A questão que me levou a transformar meu Manifesto de 2006 em uma carta a você, é que tenho divulgado que sua obra teve um impacto no meu viver, como a obra de Roberto Freire teve em meu viver há mais de 15 anos atrás. E hoje, o que mais recebo de pedidos virtuais e reais, é uma explicação do que diferencia a SOMAIÊ da SOMA. Ou seja, como se relacionam os conceitos da Biologia do Conhecer na SOMA, e o que é Te&So (Teoria & Somaiê). Ou falando de uma forma mais pessoal, tive nos meus 37 anos, recém completados, duas rupturas filosófico-religiosas: A primeira foi a SOMA e a segunda foi a Biologia do Conhecer. Falo em filosofia e religião num sentido de argumentos que justificam e referenciam meu viver em relação à realidade. Nunca engoli os argumentos religiosos e descobri, na biologia e na natureza de uma forma geral, referências para meu viver e imagino que equivalem ao que a maior parte das pessoas vê na religião. Se, por um lado, descobri a SOMA num momento de incerteza profissional e descontentamento com meu cotidiano de estudante acadêmico sem rumo; descobri a Biologia do Conhecer num momento de rompimento com outros profissionais e descontentamento com os resultados a longo prazo da SOMA: Sempre gostei de atuar com a SOMA, e continuo gostando, pois considero a SOMAIÊ uma evolução da SOMA. Mas, um dos motivos que me levou a ser somaterapeuta, era as possibilidades de mudanças sociais que poderiam advir dessa prática. Sempre tive uma visão socialista, e ao encontrar o anarquismo somático, encontrei uma forma de expressar meu desejo de mudar o mundo. No plano pessoal, sei dos efeitos poderosos da terapia, seja pela minha experiência, seja pelo que observo no viver de quem passa e passou pela técnica. Mas, os efeitos a longo prazo são amortizados pelas instituições que nos rodeiam, suas ideologias e seduções. E o que fica mais visível, é a dificuldade de manter as conquistas individuais de mudança às próximas gerações: nossos filhos. Por mais que mudemos nosso viver e nossa família, os filhos seguem influências inevitáveis de outras formas de viver, nas escolas e na cultura como um todo. Assim, descobri a Biologia do Conhecer num momento em que optava em focar minhas atenções nas produções paralelas ao de terapeuta. Percebi que as produções que participei na última década do milênio que passou, e que eram secundárias ao ser terapeuta, passaram a ser prioritárias. Viver a pedagogia libertária aplicada a educação infantil e outras formas de divulgação cultural, de autogestão e libertarismos, forma sendo incorporados pelo que chamei de Te&So. . Nesse momento rico de produções e companheiros novos, quero convidar mais e mais pessoas a colocarem parênteses em sua forma de ver a objetividade da realidade. E ver como, apesar de origens distintas, a Biologia do Conhecer é uma continuidade e um aprofundar da teoria somática advinda da obra de Freire. Assim, tenho divulgado a Biologia do Conhecer como um dos elementos da teoria somática que desenvolvo, assim: Somaiê = Wilhelm Reich + Gestalterapia + Antipsiquiatria + Anarquismo + Capoeira Angola + Biologia do Conhecer. Em 2004 comecei a fazer as primeiras mudanças na SOMA, pela sua influência. Pois, a SOMA pontua a técnica como uma busca da originalidade única, que seria o resgate de nossos potenciais genéticos, perdido na educação/socialização/neurotização da nossa ontogenia. Quando comecei a proposta Te&So, troquei a argumentação da originalidade única, pela busca das potencialidades múltiplas que possuímos e, na maior parte das vezes, desconhecemos. O ponto primordial da SOMAIÊ/Te&So é que a Biologia do Conhecer toma o lugar do anarquismo como elemento de união entre as teorias. Com a Biologia do Conhecer estou reavaliando a minha visão libertária do viver, e por conseqüência suas interações com outras áreas da Somaiê. Na minha visão anterior, que aceitava um determinismo na biologia, imaginava ser o anarquismo como uma expressão cultural humana que mais se aproximava da natureza, como explicitei no início dessa carta, pois acreditava na possibilidade de se trabalhar sobre uma natureza transcendental, independente do observador. Hoje percebo como o anarquismo será, ou não, uma conquista ética e estética, e que a natureza não trabalha com determinismos, mas que podemos determinar nossa natureza, obviamente dentro dos limites biológicos. Assim, não somos predestinados pela biologia, nem sofremos passivamente uma neurotização na socialização; construímos por opção ou omissão nossos caminhos, e neles moldamos nosso viver e o viver dos que nos rodeiam, influenciando e sendo influenciado. A junção das áreas que Freire produziu ao criar a teoria somática, era o meu referencial de vida. Eu já possuía uma visão sistêmica (ou complexa, como Edgar Morin nomeia), e meus estudos de 15 anos eram sólidos em meu racional. Mas ao aprofundar na leitura de seus textos, da Biologia do Conhecer, levei uma "rasteira" teórica. Uso aqui uma expressão da capoeira que pratico, pois o que estou fazendo atualmente é RE-construindo a somaterapia a partir do OBSERVADOR. Com Freire, ler a obra dele, foi como ler coisas que eu poderia ter escrito, no sentido de vestir a carapuça da visão de mundo que ele propunha. Com você, percebi que já intuía o observador no viver, mas você expandiu e embasou esse perceber. A base prática da somaterapia se mantém na SOMAIÊ, mas a base teórica está sendo reformulada. Pensei em detalhar as relações teóricas da Biologia do Conhecer com a Teoria Somática. Comecei esse texto de inúmeras maneiras, até optar em transformar em Carta Aberta a você. Enfim, até no meu ato de escrever sinto a insegurança que tive quando, já era somaterapeuta e começava a escrever sobre a SOMA e suas derivações. Como os quatro grupos que atuo dentro da teoria da Biologia do Conhecer não terminaram, vislumbro que somente a médio prazo poderei avaliar as conseqüências práticas desse meu encontro com sua obra. Já criei novo exercício para debater a Biologia do Conhecer dentro da Somaiê, mas tem sido na fase final da terapia, o que chamamos de cadeiras quentes, o melhor local de vivência e percepção das implicações da Biologia do Conhecer no nosso viver. Assim esse Manifesto/Carta é um convite a me acompanhar nessa nova etapa da minha vida e dessa vertente da SOMA, a SOMAIÊ. Um convite a você, um convite a meus ex-companheiros (que sei que leram seus textos, mas não deram a importância que eu dou), mas principalmente a sociedade humana que tenha acesso a meus estudos e pesquisas. Muitos poderão fazer a SOMAIÊ, e muitos mais poderão acompanhar meu percurso teórico. Colocar a percepção do OBSERVAR na construção da nossa racionalidade, pensamento e linguagem é algo revolucionário. E não duvido da Aurora Rabelo, na abertura de um livro seu publicado em português, ao dizer que o século XXI será o de Humberto Maturana (numa referência ao Michel Foucault ter dito que o séc. XX seria o de Gilles Deleuze). Independente de isso acontecer ou não para outros observadores, na minha observação isso já acontece no meu produzir. A SOMAIÊ se encontra em outro paradigma em relação à SOMA. Enquanto a SOMA transversa sobre várias áreas da realidade sem parênteses, a SOMAIÊ, agora revista na Biologia do Conhecer, abandona o prisma dualista (corpo x mente, espírito x matéria, indivíduo x sociedade, natureza x cultura ou, ainda, razão x emoção) de se ver a realidade, com uma argumentação a mais além da produzida por Freire, a argumentação da constituição biológica dos seres humanos. Ainda uso os conceitos somáticos da bioenergética, gestalt, antispiquiatria e anarquismo; mas como elementos de facilitar a linguagem dentro da técnica, pois esses conceitos estão no paradigma tradicional da cultura, onde se aceita uma realidade transcedental. Aos pouco, dentro da SOMAIÊ, trago a luz o OBSERVAR como um elemento da nossa constituição biológica, e isso, inevitavelmente, nos mostra que o que pensamos ser uma REALIDADE OBJETIVA, não passa de argumentos construídos NA LINGUAGEM, e isso nos faz passar inclusive por cima das nossas percepções e sensações. A construção teórica de Freire já me fazia transitar (nem sempre) pelo caminho da objetividade entre parênteses. Mas, a explicação da Biologia do Conhecer, onde o VIVER se processa em dois domínios distintos e congruentes, o da FISIOLOGIA e o do COMPORTAMENTO, é que aprofunda e cria novas matrizes de entendimento da teoria somática. A forma que você define as emoções em relação ao pensamento racional, e o conceito de AMOR como a legitimação do outro na convivência, é um passo a mais que se unem as contribuições de Freire na relação amor x liberdade. Perceber que existe um domínio fechado e que não distingue o externo e o interno do corpo, e se dá no sistema nervoso neuronal, que você chama de domínio da fisiologia. E a existência do domínio comportamental, onde o sistema nervoso faz parte mas participa de maneira diferenciada, como um dos elementos que compõe a totalidade do corpo são conceitos que me ajudam a modificar a percepção gestáltica, que divide o viver em figura e fundo. São conceitos que me ajudam a perceber os EUS e comportamentos variados que surgem no relacionamento social e nas comunicações interpessoais que a antipsiquiatria estuda. Enfim, pretendo destrinchar as relações da obra de Roberto Freire, que continua atual e revolucionária, dentro da objetividade sem parênteses, com sua obra e minha prática, trilhando uma SOMAIÊ no caminho da objetividade entre parênteses. Em 2005, convidei Victor Paredes de Minas Gerais para vir a São Paulo trocar práticas e teorias da Biologia do Conhecer com a Somaiê, foi o primeiro Te&So. Neste segundo semestre de 2006, vou levar esse debate a Belo Horizonte e Rio de Janeiro, num início regional de encontros de Teoria e Somaiê, e focando as relações com a Biologia do Conhecer e a Educação Infantil. Enfim, com essa carta a você, não fecho uma proposta de elucidar as relações SOMA e Biologia do Conhecer. Mas me proponho a escrever um novo texto, relacionando o ANARQUISMO SOMÁTICO com a BIOLOGIA DO CONHECER, ou como a SOMAIÊ coloca um parênteses no anarquismo. Pra quem quiser observar a realidade por essa vertente. Outro texto que entra em fila de espera é a relação da Biologia do Conhecer com a ARTE da Capoeira Angola. Ponto que se tornou histórico na separação entre SOMAIÊ e SOMA, que é a explicitação política nesse universo da cultura popular. Reitero que essa carta é um convite a observar meu trilhar futuro, pois a guinada que dei ao romper com Freire e o Brancaleone, se encontram agora na Biologia do Conhecer como a expressão mais próxima de como a SOMAIÊ propunha a percepção da realidade, só não havia a organização que você construiu no seu viver e ao formular a Biologia do Conhecer, ou o que percebo dela. Sei que ao me separar de Freire havia a necessidade de explicitar meu caminho, e o fiz na internet. Pretendo agora detalhar esse caminho para dialogar com vocês, meus observadores e companheiros. Rui Takeguma |
Manifesto da SOMAIÊ
para 2006: idealizado em maio, escrito em junho e publicado em 3 de julho
visitas hoje ( início em 3/7/2006 - 71 em 4/7/2006 )
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